Voice Marathon

por Cláudia Cotes

Acredito muito numa frase dita pelo Steve Jobs: “A genialidade está nas associações.”

Neste texto, pretendo fazer uma associação entre a voz e a corrida. Teoria e prática. Ciência e esporte. Som e músculo. Energia acústica e energia física.

O meu objeto de estudo, desde que eu me conheço por gente é a palavra, seja ela escrita, sonorizada, gesticulada, desenhada, e por aí vai.

Percorri os caminhos das letras e da fonoaudiologia para tentar entender as nuances dessa danada que me encanta todos os dias: a palavra!

E de cinco anos pra cá, também resolvi virar atleta. O motivo? São muitos: envelhecer com saúde, vencer desafios, ser mais disciplinada e ter um estilo de vida saudável. Percorri alguns países, e se eu puder, quero correr maratonas pelo mundo todo.

Foi incrível o que aconteceu na minha carreira: comecei a correr, e fui chamada para trabalhar mais. Acredito que eu tenha me tornado mais interessante pois hoje o mercado quer um profissional múltiplo! Com diferentes habilidades.

A correlação entre a fala e a corrida se dá em muitos aspectos mas gostaria de me concentrar em alguns deles como respiração, estado de flow, foco e ritmo.

Respiração e oxigenação

Os pulmões são em formato de triângulo. Isto significa que se a respiração está superior, perto dos ombros, vai faltar fôlego porque é a região onde cabe menos ar. Não é indicada nem para o profissional da voz e muito menos para o maratonista. Aliás, não é indicada na vida!

A respiração no meio do pulmão, é a que aprendemos nas aulas de educação física, no colégio. Na corrida, por muitas horas, como em uma maratona, ela acontece na maioria do tempo.

Para falar, cantar e até em momentos da maratona, a respiração indicada é a costo-diafragmática, ou inferior, onde os pulmões são maiores, portanto, cabe mais ar. E ainda temos a movimentação das costelas flutuantes, que nos ajuda no movimento de entrada e saída do ar.

Lembre-se de que quanto mais mantivermos o nosso cérebro oxigenado, mais calmos e centrados vamos ficar. Sem contar na sensação de bem-estar. Não é à toa que as técnicas de meditação são todas focadas na respiração.

Estado de flow

É aquele momento que estamos tão focados, que nem sentimos o tempo passar, e é onde acontecem as nossas melhores performances. Tudo dá muito certo!

É quando o maratonista corre e não sente mais o corpo (porque parece que ele voa). É quando uma narração é feita, as pessoas ouvem, e choram. É quando a nossa voz encontra com a alma, e a técnica vira arte. De repente, a palavra, a voz e o corpo são únicos. Achamos o tom certo, no timing correto, com a intensidade adequada e a pausa perfeita.

Só que para entrar em estado de flow, são necessárias muitas horas de treino, dedicação, estudo, entrega para o assunto ou para a causa, planejamento e acima de tudo, compromisso com o agora. O momento presente é o que importa. Nada mais. É você e a corrida. Você e o som. Feeling. Você e o texto dentro de um contexto.

Imagine o Cirque Du Soleil. Não parece que eles voam? Como nunca erram!?

Certamente, estão em estado de flow…

Maratonas exigem preparo, treinos e muita dedicação. Uma excelente locução, também. Flow, só para quem consegue juntar: conhecimento, prática e entrega genuína.

Foco, emoções e flexibilidade muscular

Foco é tudo. Parece até clichê, mas é a pura verdade. Acredite!

Para uma fala se tornar interessante, é preciso acontecer o foco sonoro. Foco é o destaque, a nossa escolha. Eu decido qual som destacar de acordo com a minha intenção. O que eu quero transmitir? O objetivo é que você, ao ouvir, sinta. Voz é emoção.

Na linguística, o som diferente é chamado de proeminência. É o som que ficou diferente na palavra, que produz sentido, e consequentemente, gera uma emoção. Na fonoaudiologia, chamamos de ênfase.

Tudo depende da intenção. A batida sonora certa, na sílaba tônica, que casa direitinho com o sentido da palavra, convence!

Na corrida, o foco está no cérebro, olhar e corpo inteiro. Pensamos e logo, sentimos. Devo ter consciência corporal e atenção plena. Quais movimentos me fazem correr bem? Foco neles.

Um corpo tenso produz sérias lesões. E também é impossível correr com o corpo inteiro relaxado. Precisamos de flexibilidade muscular, força nas subidas, mudança no ritmo das pisadas, consciência sobre o que estamos fazendo com os nossos pés e pernas, até que tudo se torne automático e fluido.

Ritmo, imagens mentais e fluxibilidade muscular

A alternância das pisadas, em diferentes velocidades, ao longo da corrida, ora mais rápidos, ora mais devagar, é que fazem os nossos músculos permanecerem intactos e fortalecidos, sem sofrerem uma sobrecarga.

O mesmo acontece na fala. A alternância da velocidade da nossa fala é muito interessante para os ouvintes porque produzem sons complexos. O ouvido humano ama sons diferentes. Falar e correr envolvem ações similares.

Na minha opinião, para um maratonista, os primeiros 10k são um aquecimento. O foco está no corpo, na respiração e nos pensamentos. Depois, a entrega acontece e o mecanismo da corrida se torna puro prazer. É a hora onde o Sistema Límbico entra em ação. Ele é o centro das nossas emoções. Quando ativado, os nossos sentimentos afloram.
Isto acontece tanto na comunicação, quanto no esporte. Na interpretação de um texto, quando o Sistema Límbico entra em ação, o resultado é um espetáculo.

A corrida é uma meditação ativa. Cérebro focado em imagens mentais que geram bem-estar, ritmo contínuo, fluência de movimentos, olhos no caminho, novas descobertas, entrega, disposição para novos desafios. Na fala, a busca por imagens mentais gera fluência sonora. De repente, a memória organiza as mensagens e os sons são produzidos sequencialmente, na nossa boca, com a dicção perfeita, como em uma música.

Na corrida, a flexibilidade física vira equilíbrio emocional, e o resultado da medalha no peito, é a concretização de uma obra-prima. A nossa conquista frente aos desafios.

Na fala, a flexibilidade muscular vira conteúdo expressivo, inteligível e memorizável. O resultado é que o ouvinte entende, internaliza e repete o conteúdo para outras pessoas.

Novos desafios

Para terminar, um pouco de filosofia.

O que move o ser humano? A vontade de aprender.

Se algo nos faz crescer, é bom.

No mundo atual, a comunicação muda a cada dia. Conectados estamos a todo momento, e muitas vezes nem damos conta de absorver tantas informações. Temos que aprender, então, a sermos seletivos.

O que me desenvolve? Como eu vou usar a minha voz?

Vou correr atrás do que na minha carreira e na minha vida?

Dica: corra dos mentirosos, dos invejosos, dos corruptos e das pessoas que não acrescentam nada pra você! Corra para o amor, para a alegria, para a verdade e principalmente, corra para alcançar a sua liberdade interna!! Corra em busca de novas descobertas.

Abra as suas asas, mostre a sua voz pro mundo, e voe nesta maratona, que é a vida…

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Cláudia Cotes 

Doutora em Linguística, Mestra em Fonoaudiologia, especialista em voz e graduada em Letras, além de Maratonista. Já correu SP (duas vezes), NY, Disney, Berlin, Londres e em 2020, correrá em Tóquio.