“Era uma casa pequena, número 39, numa vila do bairro da Aclimação.
Muitas as lembranças. A primeira bicicleta, a bola de capotão, correr atrás dos balões que despencavam do céu nas festas juninas.
Mas também a pequena sala – de visitas e de jantar – onde reinava um rádio de marca Glorieta (que tenho até hoje).
Dele sairam as primeiras vozes que guardo na memória. Minha mãe atenta às novelas da rádio São Paulo, os programas humorísticos, o reporter Esso, os grandes narradores da Panamericana, a emissora dos esportes. Quem, da minha geração, não se lembra de Pedro Luis, Mario Moraes, Mauro Pinheiro, Edson Leite?
Esse painel criativo e rico de diversão e informação era entremeado por jingles e vozes que estimulavam a imaginação dos ouvintes-consumidores. Que tal um chá no Mappin? Você sabia que Melhoral é melhor e não faz mal? Shell ou Esso? Saudade da Varig e da Panair do Brasil. Lever, o sabonete das estrelas. O locutor do Pacaembu, tonitruante, ‘o que começa com G e termina com A?’ E a torcida a responder em peso: ‘Garcia, o Imperador da Moda.’
Vozes, vozes, vozes. Dramáticas, engraçadas, sensuais, autoritárias, convincentes. Enfim, com todas as nuances que formam o painel da própria vida.
Já publicitário convivi com muitos donos daquelas vozes que encantaram minha infância e juventude. Criei jingles, spots, assinaturas. E talvez nunca tenha agradecido a eles o quanto me inspiraram a escolher a profissão da qual tanto me orgulho.
Ingênuos aqueles que periodicamente decretam o fim do rádio. Como se fosse possível calar as vozes que ecoam diariamente nos microfones abertos em todo o mundo. O que esse ingênuos não sabem é que essas vozes não falam aos ouvidos. Falam aos corações.”
Nelson Porto. Redator. Começou sua carreira na Norton Publicidade. Trabalhou na Elenco de Propaganda, Ivonne Pacheco, Cotton Publicidade. Foi diretor de criação da CBBA/Propeg, Scali, McCabe, Grupo 8 de Propaganda. Vice-Presidente de Criação da Norton, Impact, Young&Rubicam. Presidente da Pier 7 de Comunicação. Criou jingle e spots para, entre outros, Philco, Peugeot, Lada, Dona Benta, Chocolates Nestlé, Maggi, Subaru, Margarina Bona, Seiko, Colgate, Parker, Johnson&Johnson, Chester… Sempre manteve boas relações com o pessoal de som apesar de eventuais brigas com o Tula, dono da Play it Again, e o Luis Guilherme, ator e locutor.
“Quando se diz no mercado que o segmento do Som é o primo pobre da publicidade, a maioria concorda. Mas é preciso concordar também que pouco se fez até hoje para reverter esse quadro. Desunido, o setor se debate numa concorrência que não raras vezes chega a níveis predatórios. Kito Siqueira, atual presidente da Aprosom, explica que finalmente um primeiro passo foi dado em parceria com a Ancine, que estuda incluir em seus registros de comerciais os créditos de áudio. A partir daí pode-se caminhar para um mecanismo de fiscalização, hoje inexistente, que proporciona ofertas de serviços como faz a Tudo Rádios. Através de e-mails enviados a produtoras e entidades publicitárias, oferece locução a 10 reais, pacote de mil trilhas por 50 reais, mesmo valor cobrado por um pacote de mil efeitos. Parece brincadeira, mas não é. A Tudo Rádios promete ainda entregar em 72 horas sites com registro de domínio por 300 reais e streaming de rádio ao vivo para mil usuários por 200 reais ao ano. Finalizando depois de outras ofertas semelhantes, oferece divulgação de músicas para 50 mil emissoras por 500 reais. ‘Realmente não temos ainda como controlar. Não existe mecanismos de fiscalização. O que fazemos, nesses casos, e quando conseguimos identificar o autor, é alertá-lo sobre essa prática predatória, imoral e muitas vezes ilegal, além de avisar nossos associados’, diz Kito.
A área de som não é protegida pela exigência de registro profissional, como ocorre, por exemplo, com relação a diretores de cena. Músicos, compositores e maestros, além do Clube da Voz, entidade que congrega locutores, assistem impotentes a cobrança de cachês irrisórios por ‘profissionais’ sem compromisso com a classe. Resta apelar ao profissionalismo de agências e anunciantes na escolha de seus fornecedores de som e continuar lutando pela regulamentação da atividade. ‘Nem tabela oficial temos, não podemos ter. Apenas uma tabela com valores de referência sugeridos, sem poder de cobrar seu cumprimento’, explica o presidente de Aprosom.”
Blog do Adonis – 14.05.2013
Adonis Alonso- Jornalista e colunista de Marketing e Comunicação Publicitária. Assessor no Brasil do Festival Ibero Americano de la Publicidad-FIAP. Coordenador de Conteúdo do Fórum de Marketing Empresarial e do Prêmio Lide de Marketing Empresarial.
*Nota: Nós do Clube da Voz também consideramos concorrência desleal locuções feitas por donos e ou funcionários de estúdios de som, produtores musicais, criativos de agências, cantores, diretores de filmes, enfim qualquer pessoa que não tenha registro profissional de locutor ou de ator no Ministério do Trabalho.
“A propaganda, além de garantir minha sobrevivência com um certo conforto, me deu a oportunidade de conhecer lugares e viver situações que, não fosse ela, provavelmente não teria conhecido, nem vivido. Como, por exemplo, participar da última edição do festival de Cannes em Veneza. Como assim?, perguntarão vocês, jovens afoitos, festival de Cannes em Veneza? Isso mesmo, meus caros. Até 1983 o festival da Sawa, mais conhecido como festival de Cannes, era realizado ora em Cannes, ora em Veneza.
O último a ser realizado em Veneza foi em 1983. E eu estava lá. E em condições que jamais poderia imaginar viver, mesmo nos mais loucos devaneios da juventude.
Na época eu era redator de uma poderosa multicional, que hospedava seus executivos nos melhores hotéis das cidades para onde eles se deslocavam representando a companhia. E o hotel que me coube, em Veneza, foi o maravilhoso Danieli, frente ao Grande Canal, com direito a mordomias inimagináveis, como uma lancha exclusiva para te levar e trazer do cassino na hora que você quisesse. Enfim, luxo maior, impossível.
O lobby do Danieli já te coloca no teu devido lugar, ou seja, debaixo de séculos de história. O meu quarto estava localizado na ala antiga. Grande, maravilhoso, com um enorme tapete persa cobrindo todo o chão. Fui direto para o banho, numa banheira antiga, com uma cortina de plástico que eu achei que não combinava muito bem com aquela suntuosidade toda. Depois eu entendi qual era a sua função. Mas aí já era tarde.
Ao terminar o banho e sair da banheira me deparei com o quarto inundado, o tapete persa encharcado, uma cena desoladora. Demorei alguns segundos para perceber que não eram as águas do Grande Canal que invadiram o quarto. Eu apenas deixara de colocar aquela cortina sem graça para dentro da banheira. A água escorria pela cortina e corria para o quarto.
Fiquei apavorado. Ao descer, avisei o concierge que havia um “problema” no quarto. Uno sbaglio.
Sai do hotel e fui direto para o Harry’s Bar, o lendário lugar frequentado por gente como Hemingway, Orson Welles, Sinclair Lewis, entre outros. Aliás, o drink preferido dos três era o bellini, inventado ali mesmo por Giuseppe Cipriani, seu dono, num dia qualquer entre 1934 e 1948.
O drink tem esse nome em homenagem a Giovanni Bellini, porque Cipriani achava a cor do drink identica à cor da toga de um santo num dos quadros do pintor. Bellini, o drink, é feito com a polpa do pêssego, amassada até virar um purê, acrescida de prosseco, ou outro espumante. E algumas gotas de cherry brandy, para chegar na cor desejada. É uma bebida elegante, deliciosa, muito apropriada para o nosso verão.
Tomei vários bellinis. Voltei inebriado para o hotel. O concierge me entregou a chave sem dizer uma única palavra. Entrei no quarto. Tudo impecavelmente seco. Haviam retirado o tapete.
E, nos sete dias que me restaram no hotel, o tapete jamais foi reposto.”
Nicolla Raggio: Estudou Ciências Sociais e Cinema, na USP, mas o que gosta mesmo é de escrever. Redator publicitário premiado, adora escrever sobre experiências sensoriais vividas a partir de assuntos como gastronomia, cinema, comportamento, lugares e pessoas.
A Fischer & Friends anuncia o desligamento do publicitário Antonio Fadiga de sua sociedade.
Fonte: propmark